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Este governo e este PR tomaram posse comprometendo-se a servir os interesses do país. Mas a sua acção tem sido contraditória com o que assinaram e com o que dizem defender.

 

O governo com as suas conferências de imprensa e insistência nas mesmas soluções, cortes nos mais frágeis e nos mesmos de sempre, a carregar sempre na mesma tecla mesmo sabendo antecipadamente que essa repetição era inconstitucional, repetindo a propaganda da austeridade nas televisões através dos comentadores de serviço, mantendo em funções um ministro das finanças que já é percebido pelos cidadãos como um funcionário de Bruxelas, o que pretende a não ser a instabilidade política?

Primeiro ainda terá tentado neutralizar a oposição, o convite da RTP ao ex- PM para comentador político não foi inocente pois por uns dias o secretário-geral do PS pareceu agitar-se na cadeira. Falhada esta estratégia, ainda havia a hipótese do consenso alargado, mas também não pegou. Finalmente, ainda tem a instabilidade política de reserva, e é ver as frotas de carros (de marca alemã) alinhadas para os conselhos de ministros de 11 horas (!) e as informações que vão transpirando para fora (!) a revelar que isto está por um fio. Mas como isto já não funciona como chantagem política, já ninguém se comove, talvez funcione como justificação para algum deles abandonar o barco...

 

Só que se esqueceram que os cidadãos não estão para aturar mais instabilidade e insegurança, nem cortes nos mesmos, nem exemplos de gestão danosa, nem a manutenção do ministro das finanças. Querem aquilo que o governo ainda não conseguiu garantir: estabilidade e responsabilidade, resultados visíveis após tantos cortes nos mesmos, a economia a mexer, sinais de uma mudança cultural dos gestores políticos e financeiros, se têm de cortar que cortem nos interesses dos grupos protegidos, que façam o trabalho que lhes compete.

 

 

O PR falou em estabilidade, mas o discurso foi percebido como provocador para a oposição e para os próprios cidadãos. Se era estabilidade o que o PR pretendia defender, então porque foi percebido exactamente o contrário? E que cultura de base reflecte este discurso? Ausência de vitalidade, ausência de esperança, ausência de futuro. Claro que a partida da troika não acaba com a necessidade de recuperar a economia. Mas esta estratégia do governo é que não dá para a reanimar sequer. As pessoas concretas estão ausentes do discurso, apenas como pretexto para dar recados à oposição: não explorem a angústia das pessoas. Ora bem, quem anda a explorar a angústia das pessoas não é quem as assusta todos os dias com cortes e anúncios de cortes?, quem lhes retira a esperança e o futuro?, quem lhes coloca aos ombros toda a culpa dos desvarios de governos sucessivos desde o seu, o período do cavaquismo?, passando pelo pântano do guterrismo, seguido pelo abandono do barco do barrosismo, para dar tempo ao socratismo de nos vir deslumbrar com o seu malabarismo, e dar lugar à execução final de um plano para a Europa baseado na desvalorização do valor do trabalho?

 

Lembram-se que já um ministro da economia do anterior governo do PS falava disso?, de baixar os salários para competirmos com a China? O guião já lá estava. Lembram-se como o ex-PM já era um bom aluno de Bruxelas? O plano já lá estava. Lembram-se da ausência de supervisão bancária de Constâncio, o então governador do BdP e como foi promovido ao BCE? O puzzle compõe-se a pouco e pouco.

Também aqui, se o convite do ex-PM para comentador político na RTP pretendia incomodar o PR, isso pode explicar algumas indirectas ao PS. Os actuais gestores políticos ainda revelam uma sensibilidade muito egocentrada, tudo gira à sua volta.

 

Quando se fizer o balanço 1985- 2001 (condições da integração na CE), 2001 - 2004 (adaptação à moeda única) e 2005 - 2012 (a bancarrota e a perda da autonomia) já podemos entender melhor o que se passou cá e na Europa, que estes patamares andaram juntos, e evitar voltar a cometer os mesmos erros.

 

Para já, estabilidade e responsabilidade é o que se pede aos gestores políticos: governo e PR. Porque são eles os escolhidos nas eleições, depois de nos terem dito que estavam à altura do lugar.

E estabilidade e responsabilidade é também o que se espera da oposição. Se o governo não conseguir cumprir o seu papel, se desistir da tarefa ou se voltar a colocar os cidadão nas ruas e nas praças do país, tem de haver uma equipa preparada para aceitar o desafio. Preparada = em colaboração com a sociedade civil.

 

Portanto, se querem assustar os cidadãos que já cumpriram a sua parte e assim criar instabilidade, pensem de novo.

V. Ex.cias façam o favor de cumprir a vossa parte, atirem-se ao trabalho, revelem responsabilidade, e apresentem resultados.

O governo: se só sabe cortar, corte nos sítios por onde deveria ter começado. A estabilidade passa por respeitar os cidadãos que querem tréguas desta guerra psicológica, deste circo nas televisões, da voz do ministro das finanças.

O PR: é o mediador de possíveis encontros, acordos, negociações. Antes de discursar, é favor pedir a um especialista para lhe rever o texto.

A oposição: Ter a calma necessária para não se deixar provocar. Estarem atentos, alerta e garantir alguma estabilidade. Se o governo resolver provocar uma nova agitação social, tem de existir uma parte da organização política com a responsabilidade de manter alguma estabilidade. Pode ser que o governo atine. Pode ser que mude o ministro das finanças (o rosto da austeridade) e o da economia (que perdeu a credibilidade ao deixar esvaziar as suas funções). Pode ser que isto se aguente pelo menos até Setembro. Nessa altura já há as autárquicas.

 

 

 

 

Algumas horas mais tarde:

 

De facto, o governo, digo, o ministro das finanças resolveu esticar a corda e provocar reacções, na sua postura e atitude na comissão de inquérito. Reteve um documento importante, o DEO, da estratégia orçamental, e colocou, de forma ameaçadora, se não se pode aumentar impostos então vai-se pela despesa. Nada de novo. Com a mesma arrogância e indiferença a que nos habituou. É a repetição da chantagem e de tentar instilar o medo nos cidadãos, uma estratégia fria e calculada de provocar uma reacção que enfraquece quem lhe responder à letra.

Há muitas formas de violência e esta é uma delas. Uma espécie de violência psicológica mas que tem efeitos na vida das pessoas como se de uma guerra se tratasse. Nesse sentido, os tais cortes na despesa deixados em suspenso, assim friamente e em tom de ameaça, revelam uma indiferença que se torna até perversa.

 

É uma forma de violência fria e calculada a que não estavamos habituados. E com a qual ainda não aprendemos a lidar. Mas é bom que aprendamos depressa porque é com estes espécimens que teremos de lidar nos próximos tempos: tecnocratas europeus e gente que serve interesses financeiros, e que tem um plano para a Europa e para cada um dos países intervencionados ou apoiados.

 

 

Para concluir o dia de hoje com uma reflexão:

 

Espero que amanhã as manifestações na rua sejam mais de união das pessoas, da confiança em si próprias e na sua capacidade de sobrevivência, e que juntas se irão preparar para lidar com esta estratégia da violência, do que simples protestos.

Estamos para além do protesto, estamos já na fase da defesa da vida, porque já é de defesa da vida que se trata, de sobrevivência das pessoas.

A agitação social, sobretudo quando reactiva a provocações e ao esticar da corda, só enfraquece o mais fraco da equação. Há que fazer o caminho para se tornar mais forte.

A democracia tem mecanismos. A inteligência e a criatividade dos portugueses, e o seu instinto de sobrevivência, hão-de criar formas inteligentes de defender a vida das pessoas e de sobreviver à troika, a esta Europa, a estes tecnocratas e a este governo.

 

 

 

 

publicado às 13:04

Último episódio da Saga Portucalense: o fim de um país

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.11.10

Este é mesmo o último episódio da Saga Portucalense, o fim de um país tal como o conheci ou pensei conhecer. Aliás, o Vozes Dissonantes andou sempre à volta desta triste saga, sobretudo no seu período de vida blogosférica, de Agosto de 2007 a 1 de Novembro de 2010: 3 anos e 3 meses.

Têm aqui tudo o que consegui destacar, baseada nas minhas limitadas deduções é claro, porque não temos acesso aos dados que importam, os que nos dão não são fiáveis.

É só linkar a palavra-chave Saga Portucalense, está lá o essencial.

 

Manterei aqui a lista dos links actualizada, porque estão a surgir novos lugares blogosféricos interessantes e virados para o futuro, embora num país sem futuro.

 

Mas, coragem, gerações mais novas, não é obrigatório ficar aqui a vegetar, aproveitem todas as hipóteses possíveis que a vida vos der. Se não vos forem dadas, procurem-nas, inventem-nas, sejam criativos. Para já estudem, apliquem-se, não se conformem com a educação normalizada socialista, leiam, procurem, exercitem a reflexão.

O vosso futuro não está irremediavelmente colado ao desastre nacional, à decadência nacional. Libertem-se de destinos medíocres que vos querem aplicar, das propostas de uma vida superficial e sem princípios, essa via só vos levará à decadência. Esse caminho é, aliás, tão velho como o caminho palmilhado pela barbárie no seu percurso cultural difícil e penoso.

O vosso futuro dependerá da vossa criatividade e do vosso desejo de autonomia. É claro que, no séc. XXI, esta autonomia é desenhada numa interdependência, só quem perceber isso se irá adaptar aos novos desafios.

Palavras-chave: reflexão, criatividade, rapidez, flexibilidade, relativa autonomia, interdependência, capacidade de escolha, decisões rápidas e eficazes, consciência baseada no respeito pelo grupo e pelas prioridades, acordos leais.

Já perceberam a ideia geral, não é?

 

 

De resto, nada mais a acrescentar. Gostei de aqui vir. Ao acompanhar esta triste saga portucalense, acabei por perceber melhor o meu próprio percurso. E isso foi muitíssimo útil, pois permitiu-me mudar a minha perspectiva e perceber finalmente as grandes ilusões e as grandes esperanças logradas. A idade aqui também tem um papel importante, claro está. A partir de certa altura, simplesmente não queremos perder tempo, o tempo passa a ser precioso.

 

Continuam a ouvir-me no Rio sem Regresso, n' As Coisas Essenciais e, em óptima companhia, na Farmácia Central.

Um abraço blogosférico, sobretudo às gerações que herdaram um país destruído e dependente, que a minha geração, e as antecedentes, lhes vão deixar sem terem responsabilidade alguma nisso.

E um sorriso, a nossa melhor aquisição cultural enquanto espécie, a mais poética e luminosa.

Que a boa sorte e a inspiração (que é sempre divina), vos acompanhem sempre, queridos Viajantes!

 

 

 

publicado às 10:55

"Como é que pudemos deixar que isto acontecesse?"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.06.10

Foi esta a pergunta que Ernâni Lopes formulou no Plano Inclinado da Sic Notícias, com o Mário Crespo e a participação de Medina Carreira e de João Duque: Quando daqui a uns anos olharmos para trás havemos de perguntar, como é que pudemos deixar que isto acontecesse?

Isto: anos decisivos perdidos, desbaratar recursos, levar um país à bancarrota.

Parece que ninguém diz a verdade aos portugueses sobre a sua situação real e o seu futuro mais próximo: empobrecimento até à pobreza efectiva em 2013, 2014, quando começarem a cair os encargos associados e acessórios que esta gente que não sabe fazer contas e que nos governa (palavras de Medina Carreira) nos preparou.

Parece também que o sistema de segurança social não se segura muito mais tempo, e o prazo pode ir de 10 a 30 anos no máximo, segundo percebi. Parece que o filme acaba mal e mais cedo do que se julga.

 

Esta é a dimensão da fraude política em que vivemos: quem nos governa não diz a verdade, esconde o essencial, para se manter no poder e continuar no rumo que nos vai levar à auto-destruição.

Como quem nos governa não nos diz a verdade e martela a ficção nacional nas televisões e nos jornais, ainda podíamos contar com a oposição, não é?

Não. O maior partido (apenas em tamanho e também por um equívoco, porque na realidade o "novo PSD" ainda não foi a votos) também não nos diz a verdade e dá uma ajudinha ao governo para segurar os alibis: crise internacional, malvadas das agências de rating, pela salvação nacional, o patriotismo...

O BE também não diz a verdade e nem sei se algum dia verá sequer a verdade, mesmo que tropoce nela, fila a grande finança e segura o TGV e o grande investimento público.

O PCP lembra-se do cidadão comum nos seus discursos, e a sua ideia de patriotismo soa muito mais autêntica e credível que o do plastificado "novo PSD", mas falha também nas soluções, e segura, de forma incompreensível, o TGV.

A única oposição digna desse nome está, pois, a cargo do CDS. Mesmo que as vozes que apoiam o "novo PSD", este híbrido que procurarei analisar melhor nos próximos tempos, venham comparar a sua atitude "responsável", pelo "país", pela "salvação nacional", não soam nada credíveis. Apoiar o governo para esmifrar o contribuinte? Grande salvação nacional...

 

E já me desviei do Plano Inclinado. O 31 da Armada também incluiu Ernâni Lopes e Medina Carreira no grupo de vozes que nos dizem a verdade, e acrescentaram Ribeiro Telles, já o referi no post anterior. Eu ainda colocaria Bagão Félix que tem sido uma voz de certo modo solitária a alertar os portugueses, e isto desde o OE 2008 que apelidou de "eucalipto".

 

A pergunta impõe-se já, não daqui a uns anos: Como é que pudemos deixar que isto acontecesse?

Uns por acção (o governo, o jornalismo caseiro, as televisões, etc.); outros por omissão (o Presidente, parte da oposição, o Banco de Portugal, a Procuradoria Geral da República, A Justiça, etc.); e outros ainda por alienação voluntária (os eleitores que voltaram a apostar nesta equipa política); todas as personagens principais do filme representaram o seu papel e não poderão escapar à avaliação histórica.

 

Na pequena escala das nossas vidinhas insípidas também podemos fazer estragos. Mesmo que procuremos evitar prejudicar outros, magoar outros, isso acaba por acontecer. É certo que há pessoas que o fazem de boa vontade, até sentem prazer em prejudicar e magoar o próximo, controlar e dominar, podendo chegar à patologia de o querer destruir.

Na grande escala, isto adquire outra dimensão. E se os travões de segurança não funcionarem, acontece o que deixámos acontecer, e não apenas a bancarrota, a destruição da economia, o desequilíbrio regional, as diferenças acentuadas de ricos e pobres, mas a maior fractura de todas, a ética e moral, tudo o que estrutura uma sociedade: a mentira generalizada, os abusos de poder, as amolgadelas na Justiça, os pontapés na Constituição.

 

 

publicado às 10:16

O PEC, o filme: O Assalto ao Arranha-Céus Português

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.10

Confirma-se: no PEC não há lugar a negociações com a oposição. Paulo Portas di-lo, claramente: o CDS apresentou 13 medidas e foram todas rejeitadas. Pior ainda, pelos vistos nem foram consideradas. Este governo continua a governar como se ainda tivesse maioria absoluta. E esclareceu que o CDS será fiel  aos seus eleitores. Paulo Portas diz mais: que o país está a ser penalizado (na avaliação do risco de crédito), pelo ilusionismo político deste governo, que tentou iludir o valor real do défice antes das eleições legislativas, quando já se sabia que era muito mais elevado.

 

A linguagem do governo é a linguagem do poder, a da chantagem. Assim, vemos o ministro das Finanças a desdobrar-se em preocupações de última hora, os interesses do país... um consenso o mais alargado possível... E vemos o presidente da bancada do PS matraquear o mesmo discurso como se estivesse a regatear o preço de umas peúgas num mercado marroquino. Enfim, o cinismo destas personagens é incalculável.

 

Estas personagens andam a tratar da sua vidinha. O país nunca lhes interessou, a não ser para o esmifrar. O que interessou desde o início, depois do assalto ao arranha-céus, foi controlar o que ainda mexia e brilhava, a finança, os grandes negócios, as grandes corporações. Agora já só estão a tentar minimizar os danos antes de fechar a porta.

O PEC tem muito disso: o controle dos danos, do que não foi contado nem esclarecido, do que se passou nos bastidores do regime e que ficaria mal no poster publicitário. 

 

É isto que se passa, embora ninguém tenha o filme nas mãos. Bem, o filme teve de ser reconstituído cena a cena, com mais cenas cortadas do que as que passaram nas televisões nos anúncios e na propaganda. De qualquer modo, nenhum dos actores principais deste filme sai de forma airosa, não há aqui bons e maus, há só vilões. Porque tomar de assalto um arranha-céus e depois escravizar os reféns, e não apenas aqueles, também os seus descendentes até à 3ª geração... Isto depois de os anestesiar e domesticar, embalando-os com promessas falsas e finalmente, quando a realidade lhes caiu em cima (dos reféns entenda-se), que era tudo culpa da crise mundial...

 

O raciocínio de dedução dá imenso trabalho, imenso trabalho. Andam-se anos a observar, a analisar, a juntar as peças soltas... E, depois, subitamente, num relâmpago, faz-se luz: o puzzle fica completo.

Talvez a luz se tenha feito no momento em que se ouviu, no Expresso da Meia-Noite, o economista pegar na proposta das privatizações e dizer não ver ali qualquer lógica ou racionalidade... e que o número se aproxima muito do valor envolvido no auxílio aos bancos e na privatização do BPN... Ou quando ouvimos Medina Carreira dizer o mesmo, que não entende a racionalidade da proposta, que pouco vai reduzir o valor da percentagem da dívida em relação ao PIB... que ainda não conseguiu perceber a razão de tal proposta e, ainda por cima, privatizações sem qualquer critério, nem territorial, nem financeiro... e com as perdas dos dividendos... portanto, gestão danosa do bem público, é a única conclusão a tirar dali.

 

O governo sabe que não se aguenta. E nem lhe interessa continuar por muito mais tempo. O arranha-céus está praticamente destruído, já pouco há ali a fazer. A não ser que ainda possa assegurar os contratos rodoviários, ferroviários, aéreos, ou planetários, pouco mais há a fazer ali. Já se cuidaram dos buracos dos bancos, e ninguém viu nada de anormal, dos interesses das corporações, e ninguém viu nada de anormal... De resto, já está tudo esmifrado, empresas e cidadãos, pouco mais há a esmifrar... Já estamos na parte do filme em que chamaram os helicópteros para zarpar dali para fora. Uns para Bruxelas, outros para grandes empresas, outros ainda para universidades, e outros finalmente para a reforma...

 

Este filme, O Assalto ao Arranha-Céus Português, é apenas uma reconstituição baseada numa dedução lógica. Muitas pessoas já terão visto este filme. 

 

  

publicado às 19:14

O PEC: marca registada socialista e o fim dos alibis

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.10

A partir deste PEC, há ainda quem acredite no alibi da crise internacional, que aliás nem passava por aqui?

 

A partir do PEC, há ainda quem duvide que esta é a marca registada socialista: sugar os mais frágeis da sociedade, os pobres e os remediados, amnistiar os faltosos fiscais e proteger essa amálgama que vive  da máquina estatal?

A finança, em vez da economia?

A estagnação, em vez do crescimento?

A "nova elite", em vez do interesse geral?

A pobreza generalizada, em vez da racionalidade e da justiça?

As enormes diferenças sociais, em vez da coesão social?

 

Mas a verdade é que os eleitores voltaram a apostar em Setembro nesta grande mentira, mesmo depois de verificarem que as promessas de 2005 não tinham sido respeitadas. E se essas não foram respeitadas, o que os levou a acreditar de novo que estas últimas seriam?

É certo que a campanha decorreu sob outras grandes mentiras: o valor real do défice, da dívida pública, do desemprego, etc.

 

Com este PEC, o que é que o PS, ou antes, o governo (porque o PS já é apenas o governo e o governo, apenas o PM e o ministro das Finanças), quer esconder?

 

Ontem, no Expresso da Meia Noite, na Sic Notícias, um economista reparou que o valor que pretendem arrecadar com as privatizações se aproxima do valor gasto no apoio aos bancos em apuros e com a nacionalização do BPN. Conclusão do economista: este PEC nem sequer tem uma lógica racional, mas uma lista de soluções avulsas...

 

A meu ver, ainda haverá muito mais por desvendar, mas o que nos interessa agora é que as pessoas, que preferiram iludir-se mais uns tempos, como se isso fosse possível, vejam bem que o socialismo moderno, como se intitulam, não existe, é um equívoco, um perverso equívoco.

 

Nem sequer as boas intenções se lhes podem atribuir como atenuante para este PEC. Os socialistas modernaços mostraram a sua marca registada: adoram os ricos e famosos, aliás idolatram-nos e protegem-nos, e desprezam os pobres e remediados, escravizando-os com impostos.

E nem sequer a competência lhes podemos reconhecer como argumento: o PEC não é racional nem permite o crescimento da economia. É mais uma solução tecnocrata que agrada aos burocratas de Bruxelas. A sua aplicação leva metade do país à pobreza. Mas nada que incomode os burocratas...

 

Sim, que depois deste PEC as pessoas percebam finalmente o que é este socialismo modernaço, e criem anti-corpos que os protejam de próximas ilusões.

De qualquer modo, a ironia divina já está a funcionar: contrariamente ao que nos queriam convencer, não é o PSD que está em vias de extinção, mas o próprio PS. A dúvida é: será por implosão ou por desmantelamento? Ainda não sei, mas uma coisa já descobri desde ontem: será com grande estrondo.

 

 

 

Um dia depois: E tudo isto já estava inscrito no OE 2008. Bagão Félix alertou para esse facto e por diversas vezes... Ninguém reparou?

 

Mais sobre o PEC: D' O Cachimbo de Magritte, alguns posts muito interessantes: Vai haver crescimento nos próximos anos? Provavelmente não, independentemente do que fizermos, de Jorge Costa, e Sacrifícios em nome de quê?, de Paulo Marcelo.

 

E ainda, impor o PEC à oposição e ao país, com base na chantagem: Esta tentativa do ministro das Finanças, de colar os partidos da oposição a este PEC com o argumento A Bem da Nação para passarmos no teste dos burocratas de Bruxelas e das agências de rating, é mais uma chantagem inadmissível. Aliás, além do PM, este é um autêntico pro em chantagem.

Paulo Rangel já desmontou isto. Agora só espero que pelo menos o PSD não ceda a mais nenhuma... O PEC é deles, só deles, é a sequência natural da sua desgovernação de 5 anos, de ilusões e mentiras, levadas até à ilusão e mentira final. Tem a sua marca registada, que já estava inscrita no OE 2008. Quiseram governar sozinhos durante 4 anos e meio e agora não tomam nenhuma iniciativa sem querer colar os restantes partidos às suas invenções medíocres? Se querem negociar, aprendam a negociar. No entanto, duvido que este governo consiga aprender a negociar. Só sabe chantagear. E vitimizar-se. Lá fora utiliza operações de charme para vender o produto, cá dentro utiliza a chantagem e a vitimização.

 

 

publicado às 15:30

E não há meio de me conseguir despedir deste cantinho onde passei algumas horas a reflectir.

De qualquer modo, vou continuando a vir aqui, e arrumar a casa. Nos links, por exemplo, irei acrescentando algumas novas descobertas e retirando as vozes que se distanciam dos valores que defendo.

Podem dizer-me: Mas que democracia é essa? E "dissonantes" quer dizer o quê?

 

A democracia não é o cruzamento de linhas desencontradas, tudo a falar ao mesmo tempo, tudo no mesmo plano, tudo a discutir.

Também não é a opinião pública domesticada que já está aí, a todo o vapor, nas televisões.

E também não devia ser uma limitação e constrangimento às verdadeiras "vozes dissonantes".

 

As vozes verdadeiramente dissonantes são as que observam bem antes de falar, as que reflectem, as que analisam, as que não se deixam arrastar pela opinião oficial ou pela opinião pública facilmente manipulável.

São essas vozes que me interessam.

 

Há prioridades, nem tudo está no mesmo plano. Há diferenças, há fronteiras. Não se pode meter tudo no mesmo saco e dizer que é tudo a mesma coisa.

É por isso que a opinião pública de nada nos serve, porque é superficial, irreflectida, acrítica, e tantas vezes fundamentalista. Generaliza onde é necessário especificar, dramatiza onde é necessário ponderar.

As vozes verdadeiramente dissonantes não se deixam impressionar pela opinião oficial precisamente porque sabem que é fabricada, não é real. E não se deixam impressionar pela opinião pública porque é facilmente manipulável pela opinião oficial.

 

A sociedade actual vive, de certo modo, fora da realidade. A maioria das pessoas acredita no que é visível à vista desarmada e nas informações que recebe, sem sequer as questionar. Isto é preocupante e coloca-as numa posição muito vulnerável.

Porquê? Porque agem segundo expectativas que não se vão concretizar, precisamente porque são fabricadas pela mentira oficial. 

 

Pois bem, arrumar a casa é importante para mim. Além dos links, que vou actualizando como disse, cheguei a pensar retirar alguns posts datados. Como nos filmes, há posts que resistem ao tempo e outros que estão fora de prazo. Como aqueles três sobre o magnífico discurso de tomada de posse do Obama, por exemplo.

Estão a ver como magníficos discursos não servem para nada, a não ser para manter a mentira oficial, a manipulação da opinião pública e a evangelização popular?

Não disse Obama que os povos que precisarem dos EUA... a defesa de valores fundamentais... os direitos humanos... ?

Pois bem, o Dalai Lama está em Washington e não vai ser recebido na Casa Branca.  (1)

Mas vou deixar ficar os posts, até para servirem de contraste com a realidade cada vez mais medíocre.

Na verdade, a personagem Obama nunca me convenceu, lá mais para trás disse-o por duas ou três vezes, mas aquela oratória toda... enfim, estão a ver os perigos de uma boa oratória numa personagem sem consistência? 

 

Já falei de arrumações, agora devia falar de despedidas.

Pois bem, não vou dizer Adeus. Tal como os Sioux do filme Thunderheart, que não têm essa palavra no seu vocabulário.

 

 

(1) Bem, talvez receber o Dalai Lama na Casa Branca fosse pedir demasiado... Um império em declínio a enfrentar um império a ressurgir... Essas questões ficarão para negociações de bastidores, quando muito... 

 

 

publicado às 11:12

A Saga Portucalense precisa de novos guionistas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.09.09

Uf!A trabalheira que dá tentar desenredar a meada, pegar no fio e ir por aí fora até desfazer os nós...

Apanhar o fio à meada só com a ajuda de blogues como O Insurgente, tanto nos seus posts como nos seus comentários.

Não posso dizer que reconstituí o filme, mas posso dizer que lhe descobri o guião principal, o motivo, e que a palavra-chave é poder.

 

O mais difícil deste exercício, de começar a reconstituir o guião deste filme, é tentar compreender as personagens: o que as move? O que as fez agir assim e assado?

E para isso é preciso tentar entrar em mentes perversas e medíocres, como são muitas das mentes que vivem e gravitam à volta do poder quando não têm nem o perfil nem a estrutura para o exercer.

 

Palavra-chave: poder;

Guião: manter o poder (uma das personagens); expandir o poder (outra das personagens); ter acesso ao poder (várias personagens, umas de forma realista, outras de forma alucinada);

Personagens bem sucedidas: até ontem, a segunda e alguma das terceiras.

Vítimas inocentes: o cidadão comum que preferiu a realidade à ficção e que não votou PS em 2005 e que voltou a não votar PS em 2009. Vítimas com uma atenuante: o cidadão comum que simplesmente não votou em 2009. A atenuante é ver a decadência geral que o rodeia.

 

O guião é francamente medíocre mas é o que mais se aproxima, a meu ver, do guião oculto, ocultado até ontem ao cidadão comum.

 

Enquadramento do enredo: a forma como este governo acedeu ao poder. Pela mão do anterior Presidente Jorge Sampaio. Certo? E pela ficção nacional: promessas de um céu inatingível. Certo?

 

Mais enquadramento do enredo: o PS escangalha a economia do país no primeiro mandato e como sabe que não vai sair bem do filme desiste a meio do segundo mandato. O seu prazo para desgovernar é de 6 anos, mais ou menos. Foi assim com Guterres.

Ora, desta vez o fim do ciclo em que aguentaria o barco coincidia com as eleições presidenciais. Óptimo! Tal como os anteriores Presidentes, que vieram de primeiro-ministros, também o actual alimentou essa ambição. Why not? Só que para isso era preciso acontecer o que nunca tinha acontecido: que o actual Presidente não fosse reeleito, o que seria inédito.

 

O Presidente não é ingénuo, tem experiência política, lidou com Mário Soares, conhece todas as suas artes e manhas, e mesmo assim... cooperou estrategicamente durante cerca de 4 anos! Com um governo de maioria absoluta! A revelar tiques de autoritarismo e com  uma ambição insaciável de expandir o poder! A esmifrar de forma odiosa o cidadão comum mais vulnerável de todos: os pensionistas!

E depois dirige-se ao país?, ao cidadão comum que nada pode fazer porque não tem poder para isso? Quer dizer, tinha o poder do voto neste domingo...

 

Já se tinha dirigido ao país quando lhe tentaram reduzir os poderes presidenciais. E o que é que o cidadão comum podia fazer? Nada.

Já se tinha dirigido ao país no ano Novo a explicar a situação real do país, os tempos difíceis que estavamos a atravessar. E o que é o cidadão comum podia fazer que não tivesse feito já? Já tinha pago a factura e aguentado o barco à tona da água... Muitos até já tinham emigrado...

E agora dirige-se ao país para dizer que sempre foi isento, equidistante politicamente, etc. e tal. Isso o PSD já tinha compreendido. Porque também pagou um preço elevado por essa isenção.

 

Vê-lo ontem, vulnerável, deixou-me constrangida. Mas não me comoveu. Why not? Porque as verdadeiras vítimas da sua cooperação estratégica são precisamente os cidadãos que pagaram a factura de manter os caprichos irresponsáveis deste governo socialista.

Porque o Presidente sabia muito bem quais as ambições desmedidas deste governo, era impossível não saber!

Os tiques de autoritarismo, de manipulação grosseira de informação, a ficção nacional, a megalomania...

A ausência de supervisão bancária, as nacionalizações apressadas de bancos, a ausência de uma concorrência leal de mercados, a ausência de transparência de grandes negócios...

Ter todos os serviços de informação, secretas, polícias, na mão?

E a TVI? Não é uma verdadeira asfixia democrática? Achou bem ver os socialistas esvaziar essa questão fundamental numa democracia de qualidade? Isso não o preocupou?

E esta vergonhosa campanha eleitoral em que se comparou a líder do PSD a Salazar, quando são os socialistas que mais citam o homem (veja-se a ponte sobre o Tejo)?

 

Demasiado tarde. Já nem me refiro à questão das escutas, os socialistas não precisam de escutar nada, têm informadores, bufos, get it?

Mas refiro-me à degradação geral a que o país chegou.

 

 

A histeria, a dramatização, a fractura esteve quase toda ali a cargo dos socialistas. O circo, o palanque, a lama, são a sua especialidade. Se agora pensam que colocando um rosto sério, angelical, e voz melíflua, aveludada, nos vão convencer que nada têm a ver com a agitação e insegurança política actuais, forget it!

Vimos os discursos arrogantes e inflamados na AR, as insinuações e slogans da campanha eleitoral, a falta de educação mais básica, de respeito pelos adversários e pelas regras do jogo, a estratégia da chantagem política, da ameaça velada, da retaliação, isso está à vista como a sua marca genética.

 

A serenidade esteve do lado da oposição, à excepção talvez do BE que também revelou uma sede de poder e uma arrogância inusitadas na campanha e na noite dos resultados eleitorais.

É essa serenidade a melhor resposta à agitação. Serenidade e unidade, cada grupo à volta das suas lideranças.

Não subestimar a capacidade "criativa" de quem se agarrou ao poder e vai tentar chantagear tudo e todos para o manter.

Não ceder a pressões. Não se deixar enredar em intrigas internas. Estar alerta e atento.

 

E isto igualmente para o cidadão comum, aquele que escolheu a realidade em vez da ficção e que se vê agora arrastado no carrossel da demência nacional.

Serenidade é a única forma de se manter distanciado desta agitação geral. As trovoadas passam. No seu percurso o ar fica carregado de electricidade, mas depois da grande chuvada o ar fica mais limpo.

 

Para se manter saudavelmente afastado da demência nacional, evitar alguns programas televisivos que só alimentam a ficção nacional e a histeria colectiva.

Há formas mais saudáveis de obter informação fidedigna. Procurem-nas ou criem-nas. Numa democracia de qualidade tem de existir espaço para uma informação isenta e séria, adequada e eficaz.

 

Talvez uma descentralização progressiva do poder ajude a equilibrar o papel do cidadão comum numa sociedade de tecnocratas. E aí há espaço para associações locais, debates, iniciativas culturais, enfim... tudo o que significa vida  e pessoas. 

 

 

publicado às 09:02

A Saga Portucalense

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.09

Dedico este blogue aos bloggers da nova geração, essas vozes dissonantes que se destacam da mediocridade geral, que não se conformam com a mediocriodade geral e que se afirmam livres, autónomas.

 

Vozes assim são raras e nunca como hoje tão necessárias num país em ruínas...

 

A Saga Portucalense ainda vai continuar por muitos anos. Muitos episódios de filme de série B (ou pior, como os que vivemos actualmente) se irão desenrolar. E nem os seus habitantes (estranhos habitantes) se poderão mostrar escandalizados, porque escolheram a ficção em vez da realidade.

 

É por essas vozes que se destacam que vale a pena ter-me debruçado neste teclado. Vou, pois, e durante alguns dias, deixando aqui os links a essas vozes:

 

E começo pelo Bruno Alves com O Pântano, que podemos ler n' O Insurgente e no Desesperada Esperança.

 

O mesmo termo pântano, utilizado por um ex-primero ministro que se refugiou na ONU, também já tinha inspirado o John do Jardim de Micróbios e não resisto a colar aqui a parte final do post, digna de um cenário de filme:

 

"... Um verdadeiro pântano: lama, água estagnada e fedorenta, vegetação decrépita, nuvens de insectos à procura do sangue dos incautos. Não conhecemos o significado de "responsabilidade". "Mérito" é um conceito igualmente obscuro, apesar de haver agora um proto-partido que até inclui a palavra no seu nome. A "dignidade", essa, naufragou há muito. Se num assombro todos os casos acima citados - e os outros - fossem resolvidos, não ficava pedra sobre pedra neste país. Teríamos de fazer como aquele rei do inigualável Monty Python and the Holy Grail: construir castelo atrás de castelo no pântano, até que haja um que não se afunde, suportado pelas fundações submersas dos outros todos. E daí, talvez seja mesmo essa a solução. Como as coisas estão, é isso ou ir bugiar para tão longe quanto possível. "

 

 

Retomo também aqui a série de posts de Pacheco Pereira no Abrupto: Tudo está a mudar, tudo está na mesma. E a sua série Notas soltas quase sem tempo: situacionismo; o papel de Mário Soares e Alegre; reveladora indiferença; interferir por acção e interferir por omissão. E finalmente, Para se perceber a "asfixia democrática".

 

 

Na manhã seguinte: E a série Notas soltas quase sem tempo de Pacheco Pereira, no Abrupto continua: A 'operação Diário de Notícias; Deliberada censura; Fazer o mal e a caramunha.

 

Estas eleições legislativas, já o disse aqui, vão decidir o nosso futuro como país, a nossa viabilidade, de uma forma determinante. Estamos próximos de uma fractura social muito semelhante à que existiu no PREC. Há uma dramatização no ar, a manipulação de informação, a tentativa de tudo controlar. Claro que isso não se vê à vista desarmada e os distraídos não reparam em pormenores.

 

Pensar na simples possibilidade de uma reedição PS já seria um pesadelo, mas a possibilidade de uma coligação PS-BE é já o suicídio assistido, a eutanásia que eles tanto prezam.

 

Se as pessoas estivessem mais atentas, nunca deixariam passar certos pormenores: o estilo das campanhas, por exemplo, o espectáculo, o conteúdo do discurso, a histeria, o apelo à resposta emocional, a cor das bandeirinhas... pormenores.

 

Apesar da opinião dos jornalistas que as têm acompanhado, agradou-me a sobriedade e discrição das campanhas do PSD e do CDS-PP. É claro que no país isto é inédito, mas é esse o tom certo numa altura de graves dificuldades financeiras, em que muitas pessoas se sentem inseguras em relação ao futuro.

O tom certo é o do debate ponderado, a troca de ideias, o esclarecimento de dúvidas. Esse é o tom certo para uma campanha numa fase tão precária e complexa do nosso percurso.

 

Todos os casos e contra-casos que forem engendrar para perturbar a campanha e o período de reflexão do eleitor é da maior irresponsabilidade. Esse é mais um pormenor a que as pessoas deveriam estar atentas.

 

Tudo está em aberto, nada é previsível neste momento. Podemos apostar num ou noutro cenário, mas são apenas hipóteses... E seja como for, já se percorreu um caminho em terreno adverso, já se defenderam ideias em campo minado.

Há valores de que não podemos abdicar sem perder parte da nossa humanidade. A autonomia é um deles. A capacidade de escolha é outro. Uma cultura da vida, não uma cultura da morte. Valores como a responsabilidade individual, não a desculpabilização colectiva. São esses os valores que respeitam a dignidade de cada um, o seu valor intrínseco.

 

 

A dois dias do Dia D:

 

A serenidade: Sempre atenta a pormenores: a serenidade de Manuela Ferreira Leite a contrastar com a histeria da máquina socialista. A simplicidade da campanha laranja lembrou-me os tempos genuínos de 76. Também Marcelo Rebelo de Sousa o disse ontem, era o mesmo espírito, a mesma unidade. 

A serenidade será sempre mais forte do que a histeria, aconteça o que acontecer. Essa é a dimensão de um líder, a sua densidade, a sua consistência.

Foi um longo caminho em terreno adverso, com tudo a ser controlado, jornalismo caseiro, comentário doméstico, mas o PSD reestruturou-se, uniu-se, reencontrou a sua alma original.

A unidade do PSD, agora recuperada, essa chamade novo acesa, terá de continuar. Aconteça o que acontecer...

 

Agora só mais alguns pormenores: de todas as pessoas ligadas à vida política do país, Marcelo Rebelo de Sousa era daquelas que eu diria que nunca se deixaria surpreender por nenhum facto político acontecido ou por acontecer. Ele simplesmente sabe tudo, pensei, conhece os cantos à casa, mesmo de olhos fechados, ouve aqui e acolá, junta as peças do puzzle e até antecipa o que vem aí. Certo? Errado.

Ontem vi-o visivelmente preocupado. Vou tentar juntar algumas frases: ... ataque ao Presidente sem precedentes... a pensar nas próximas presidenciais... (estas foram ditas num jantar formal já não sei de quê). A máquina socialista andou bem... com todos os meios mais sofisticados... Quem normalmente nunca teria qualidades para chegar onde chegou... Agarrado ao poder porque não tem mais nada... um arrivista... (estas foi no programa da RTP1 num frente a frente com António Vitorino).

 

Também Pacheco Pereira e Lobo Xavier não escondiam a repulsa pelos comentários de António Costa na Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira chegou aos termos são perigosos... capazes de tudo...

Nunca os vi tão eloquentes. O ambiente aqueceu, aliás ficou ao rubro. António Costa concluiu ameaçador: Espero que o PS sozinho consiga mais deputados que o PSD e o CDS juntos... Não percebi para quê, mas não parecia que lhes iria enviar chocolates.

 

Chegámos ao ponto mais crítico da nossa história colectiva, desde a mudança de regime, disso eu tenho a certeza. (Fiquei perplexa com a negação de Mário Soares, que não, que não tinha apelado à coligação PS-BE... Mas se eu ouvi!?)

Agora passamos pelos alibis para esconder desvios, os alibis para esconder incompetências, os alibis para esconder a realidade de país falido.

 

A quadriga socialista aí está, como previsto, a lançar lama para todos os lados. Mas até o President? O rosto de Marcelo Rebelo de Sousa dizia tudo.

 

 

E no entanto... olhando para trás, o que agora me incomoda é a cooperação estratégica... aquela cooperação estratégica... sim, a cooperação estratégica...

 

 

Na noite do Dia D:

 

Uf!... Ainda bem que não sou só eu a pensar assim... Já me sinto mais acompanhada!

 

 

 

publicado às 10:18

Um teste à capacidade de construir uma democracia de qualidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.09

As próximas eleições legislativas não serão apenas uma questão de escolha entre vários programas que servirão de base para a gestão do poder político.

Irão ser igualmente um verdadeiro teste à capacidade portucalense de construir uma democracia de qualidade.

 

Já houve um tempo em que havia ética e ideiais. E sim, posso situá-lo na primavera marcelista, de elites intelectuais com um nível que não voltámos a ter até hoje. E, alguns anos mais tarde, a possibilidade da concretização desse sonho, de uma democracia de qualidade, com Sá Carneiro e a AD.

 

Desde essa fase do nosso percurso, tem sido sempre em curva descendente: a decadência moral, cívica, cultural, económica e financeira, profissional, etc.

Únicas excepções: mudança de regime, embora nunca se tenha afirmado como uma democracia de qualidade; e liberdade de expressão, agora comprometida.

 

Sá Carneiro foi, até hoje, o único político a saber interpretar esse papel de levar o país para uma democracia de qualidade. À semelhança das democracias do norte europeu.

O país pareceu compreender a sua mensagem, até porque sabia comunicar de forma brilhante, e seguiu o seu sonho.

Não voltámos a viver nenhum momento assim, completamente virado para o futuro, sem saudosismos nem remorsos, com um lider de que verdadeiramente nos orgulhávamos.

 

Esta história, caros amigos mais jovens, está toda por contar.

O sonho foi interrompido e dificilmente o enigma se irá desvendar.

 

Estamos talvez no momento mais crítico desde a mudança de regime político. Não apenas a nível económico e financeiro, mas a todos os níveis: moral, cívico, cultural, profissional...

O trabalho deixou de ser valorizado. As relações deixaram de ser fiáveis. Valoriza-se o lucro fácil. É-se tolerante com quem prejudica o próximo e o colectivo. Perdeu-se a noção de competência, compromisso, responsabilidade.

 

De qualquer modo, os socialistas nunca perceberam nada de Economia, como pôr tudo em movimento, nem sequer sabem o que é um motor de arranque. Pararam o veículo numa daquelas suas auto-estradas-miragem, agora quase desertas, e não há modo de o pôr de novo a andar.

Como não sabem nada de Economia, a melhor forma de se aproximarem do metal sonante foi a intervenção directa nos bancos em situação duvidosa: dois em um, acesso ao poder económico e abafar o escândalo em que também estão metidos.

 

Sim, a sua especialidade são as Finanças e como esmifrar o contribuinte, nisso tornaram-se especialistas.

 

E já nem vale a pena referir a Justiça... Basta a Justiça deixar de funcionar e o equilíbrio perde-se. A balança já nem tem calibragem que lhe valha, está toda desengonçada, coitada!

 

O Emprego (prefiro o termo Trabalho, não sei porquê), como está directamente relacionado com a Economia e a Educação, e indirectamente com a Saúde, Justiça, Cultura... estamos bem tramados. É que não se podem inventar locais de trabalho assim sem mais nem menos. 

 

Quanto ao teste, o país irá perceber a sua importância?

Vejo uma tendência geral para a apatia... Nem se incomodaram muito com a ausência do seu jornal televisivo preferido, da Manuela...

Mas este foi apenas mais um sinal, a somar a tantos outros...

Sim, deve ter sido por isso, o factor habituação.

 

Estamos, sem sombra de dúvida, no período mais crítico do nosso percurso desde a mudança de regime político.

 

 

Nota 1: N' O Insurgente vi destacado por André Azevedo Alves um post de Rui A. no Portugal Contemporâneo: Afinal, as ideias servem para alguma coisa?

Nota 2: Este post de Rui A. levou-me a revisitar o Portugal Contemporâneo e a descobrir um outro, ainda mais surpreendente e oportuno, Rupturas, pela simplicidade e profundidade em simultâneo, da sua análise da nossa situação actual.

 

 

publicado às 10:43

A ficção nacional e a propaganda governamental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.07.09

A propaganda governamental a tentar manter a ficção nacional. Se fosse um filme, colocá-lo-ia aí pelos anos 30. Um Pregador em cima de um palanque, sim, vi recentemente um filme que me lembra este discurso de propaganda governamental. Situava-se precisamente nos anos 30 (o título já me vai surgir...)

 

Alguém acredita que há consolidação orçamental?

Alguém acredita que há dinheiro para manter esta megalomania socialista? E que haverá condições para continuar a alimentar esta máquina estatal?

Com um país falido e empobrecido? Com o contribuinte liofilizado e desmoralizado? E que vai ainda ter de pagar do seu bolso os buracos das grandes fraudes financeiras? Assim como os erros de gestão deste governo? O tempo perdido? As opções erradas?

 

Olhando para o país actualmente, que mais parece um estado novo reeditado, com ricos e pobres, com grandes negociatas protegidas e as pequenas empresas falidas, alguém acredita que este é um socialismo democrático?

 

Cá para mim o buraco é tão grande que os socialistas já não o conseguirão esconder por muito mais tempo. E que haverá ainda muitas histórias por contar bem escondidas em gavetas.

E não é só o buraco e as histórias mal contadas, é a destruição do que ainda se mantinha de pé: a confiança nas instituições-chave do nosso colectivo.

 

Pois é, em breve o cidadão comum irá ter de escolher e nessa escolha estará de facto a esperança de uma viabilidade para o país. Que a sua escolha não será nada facilitada pela ficção nacional e a propaganda governamental, já vimos. Nas televisões, nos jornais, aí está a máquina publicitária a funcionar em pleno! E nos estudos pseudo-científicos e nas sondagens encomendadas.

 

 

 

Dois dias depois: Do Tempo que Passa, de José Adelino Maltez, dois posts sobre o "estado a que chegámos". Um e outro revelam-nos uma fotografia amarelecida e pouco nítida de um país entre a tragédia e a comédia.

 

 

 

publicado às 15:34


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